quinta-feira, 13 de outubro de 2016

"Enquanto escrever e falar vou ter que fingir que alguém está segurando a minha mão". Clarice Lispector.

A POSSÍVEIS LEITORES


"Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente - atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. "
C.L. *


Assim, inicia-se: A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector (1920 - 1977), que traz em seu enredo uma mulher, identificada, com todos os seres, apenas pelas iniciais G.H., que após demitir a empregada, entra em seu quarto para limpá-lo, matando uma barata esmagada na porta do guarda-roupa. Relata, assim, a perda de sua individualidade.
No dia seguinte, narra a própria impotência em descrever o episódio. 
A história se organiza em capítulos de sequência sistemática – todos os capítulos começam com a frase que encerra o anterior. A interrupção, assim, é elemento de continuidade, numa representação simbólica do que é a experiência de G.H. 
O ápice da revelação acontece na cena mais famosa do romance. A barata, após perder sua casca, expele a secreção branca que aparece como sua última essência. Estaria aí a renúncia que a personagem faz a seu próprio ser como linguagem, que, logo após o ato, entrega-se ao silêncio.



A Paixão Segundo G.H.

Autora: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Preço: R$ 18,60
Livraria Saraiva
Acessado em 13/10/2016

sábado, 8 de outubro de 2016

Literatura e o tempo da arte.


Se alguém me pedir para explicar o significado de Literatura, ficarei propensa em dizer que a entendo como a arte de compor a vida em prosa ou verso.

Em termos conceituais, a palavra Literatura vem do latim "litteris" que significa "Letras", e possivelmente uma tradução do grego "grammatikee". Em latim, literatura significa uma instrução ou um conjunto de saberes ou habilidades de escrever e ler bem, e se relaciona com as artes da gramática, da retórica e da poética. Refere-se à arte ou ofício de escrever de forma artística. O uso estético da linguagem escrita.

Eis que me deparo com uma explicação poética sobre Literatura, num jovem  promissor poeta e escritor de São Paulo, Edivaldo Ferreira dos Santos, em seu, como ele gosta de chamar, “livreco” Ragtimes, beijos na nuca &  buracos no peito...


"O tempo da arte é outro 

Fazer arte não leva tempo


Leva vidas" 

Edivaldo Ferreira

Ragtimes, beijos na nuca & buracos no peito
Autor: Edivaldo Ferreira 
Capa: Ramon Rodrigues

Bar editora
Coleção Literatura de Buteco, 2016
Pocket book
Preço: R$ 12,00.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Quem pensa em A máquina de fazer espanhóis, pensa nas passagens da vida...

Um dia desses, encontrei numa página de rede social uma indicação literária de uma amiga muito querida, que ao pensar em minha "alma lusitana" resolveu marcar meu nome e assim, surgiu meu desejo por Walter Hugo Mãe e sua A máquina de fazer espanhóis. Confesso que pensei, como um escritor português escreve sobre "fazer espanhóis"? Eis que vou ao meu passeio mensal na Livraria Cultura do Conjunto Nacional em São Paulo e encontro a obra. Apaixonei-me pelo Senhor Silva. Começamos nossa história assim, no primeiro capítulo...

somos bons homens. não digo que sejamos assim uns tolos, sem a robustez necessária, uma certa resistência para as dificuldades, nada disso, somos genuinamente bons homens e ainda conservamos uma ingênua vontade de como tal sermos vistos, honestos e trabalhadores. um povo assim, está a perceber. pousou a caneta. queria tornar inequívoca aquela ideia e precisava de se assegurar da minha atenção. não tenho muita vontade de falar, sabe, senhor, estou um pouco nervoso, respondi. não se preocupe, continuou, a conversa e mais para o distrair e, se ficar distraído sem reacção, também não lho levo a mal. e o que fez a liberdade, acrescentou. um dia estamos desconfiados de tudo, e no outro somos os mais pacíficos pais de família, tão felizes e iludidos. e podemos pensar qualquer atrocidade saindo à rua como se nada fosse, porque nada é. as ideias, meu amigo, são menores nos nossos dias. não importam. as liberdades também fazem isso, uma não importância do que se pensa, porque parece que já nem é preciso pensar. sabe, é como não termos sequer de pensar na liberdade. é um dado adquirido, como existir oxigénio e usarmos os pulmões. não nos hão de convencer que volte a censura, qualquer tipo de censura, isso seria uma desumanidade e agora somos europeus.



A Máquina de Fazer Espanhóis, do escritor português Valter Hugo Mãe, para mim, foi um  mergulho no universo de um português, que aos 80 anos, após viver 46 anos ao lado de sua amada que se despede da vida,  tenta reencontrar o sentido da vida em um lar, o Feliz Idade. No primeiro momento, fecha-se em sua casmurrice e se cala,  a fim de mostrar ao mundo a sua dor.

A vida, porém, continua, e por meio dos pequenos gestos de seu cuidador e da atenção dispensada pelos outros moradores do lar, aos poucos, nosso protagonista percebe  que todos carregam suas dores, mas que a vida não para e nos surpreende a todo instante. Proporcionando um  eterno aprendizado. Assim, começa a estabelecer laços de amizades com o Senhor Pereira, o Silva da Europa e o Esteves Sem Metafísica, do poema Tabacaria de Fernando Pessoa. 

Descobrir um autor como Valter Hugo Mãe é deparar-se com escritos singulares. O texto, todo escrito em letra minúscula, acompanha a narração do personagem principal, em primeira pessoa. Curiosamente, dois capítulos do livro, o quinto e o décimo sétimo, são grafados em caixa normal, aparecendo letras maiúsculas no início de parágrafos.
Mais do que relatar a história de um senhor português, Valter Hugo Mãe capta a identidade de um povo, seus costumes, sua história e o amor pelo seu país. Não se trata de um Senhor português, mas de muitos e tantos outros portugueses, que em comum compartilham uma alma lírica, às vezes alegre, na maioria das vezes melancólica. Não é um povo constituído meramente por pessoas nascidas em um mesmo país, mas por pessoas como que sagradas em versos formando uma grande poesia.
Máquina de fazer espanhóis
Autor:  Valter hugo mãe
Editora:  Biblioteca Azul
Páginas:  256 páginas
Preço: R$ 44,90
http://www.livrariacultura.com.br/p/a-maquina-de-fazer-espanhois-46335799

terça-feira, 4 de outubro de 2016

"Esperança nas Exceções"

Tudo o que me sobra é a esperança nas exceções, Edivaldo Ferreira.

Conheci o autor e poeta Edivaldo Ferreira num lugar inusitado, em seu trabalho, que é uma arte, a arte de sommelier de cerveja. Indicações perfeitas de acordo com a perspicácia e sabedoria que lhe são devidas. As indicações não param por aí... Admirador de jazz e rock, teatro, cinema, literatura, descobri que também é um escritor, tradutor e lançou um livro de poesias que me deixou surpresa pelo potencial do conteúdo à métrica, estrutura poética. 
As surpresas não param por aí...Um belo dia, ensolarado, eis que vejo um post com textos dele, Edi, para os amigos...Me emocionei, lágrimas que me encheram os olhos...

Compartilho o projeto do blog https://caosdescrito.wordpress.com/2015/09/02/pb/


Desenhar flores coloridas nas paredes da cidade cinza era um ato de rebeldia que ela praticava regularmente nas tardes em que cabulávamos aulas de Literatura, eu perguntava se não seria mais revolucionário plantar flores de verdade pela cidade e ela sorria e dizia que não dava tempo de esperar, que tinha pressa, com as tintas spray era fácil deixar o mundo mais bonito, mais colorido. “Que diferença faz um mundo bonito desenhado com linhas tortas numa parede descascada?”, eu me perguntava. A gente cresceu e envelheceu e eu me esqueci do seu rosto e agora minha filha teima em correr naquela rua de paralelepípedos contando as flores desenhadas na parede, que apesar do tempo, continuam ali. Eu também continuo por aqui, morando na mesma rua. Casei com uma mulher que não amo e tenho um trabalho que não gosto. Eu me deixei levar pelas regras desse jogo que a gente é obrigado a jogar no instante em que nasce e aqui estou eu, um funcionário medíocre com uma vida medíocre que todas as noites se esforça, sem sucesso, para lembrar orações que aprendeu quando criança. Outro dia numa livraria vi o nome dela, da garota que pixava flores coloridas, na capa de um livro de fotografias. Mas estavam todas em preto & branco. Vi escrito lá que ela viajou pelo mundo visitando florestas e tribos que têm pouco ou nenhum contato com o homem civilizado, sorte a deles. No fim do dia quando me debruço sobre textos inacabados que acabam no fundo da gaveta, cartas que eu nunca vou enviar ao lado de contas vencidas, enquanto escuto minha filha brincando na sala e penso sobre o tipo de ser humano que ela vai se tornar, tudo o que me sobra é a esperança nas exceções, uma planta nascendo no asfalto de uma cidade morta.
Foto: Matheus Cappellato / Texto: Edivaldo Ferreira

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domingo, 7 de dezembro de 2014

O segredo de seus olhos

 O SEGREDO DE SEUS OLHOS
Ricardo Darin 
Benjamín Espósito é um ex-servidor da justiça penal argentina. Recém-aposentado, procura aproveitar o tempo livre para escrever um livro. Inspira-se em um caso real, ocorrido há 25 anos e que sempre lhe comoveu: o brutal estupro seguido de assassinato de uma bela jovem, Liliana Colotto.
Na época, Espósito aceitou cuidar do caso a contragosto, uma vez que ele seria da alçada de outra seção. Ao deparar-se com o estado do cadáver, todavia, passou a nutrir certa obsessão para esclarecê-lo. É com fúria que reage ao notar que os homens presos pelo crime são humildes e inocentes operários que foram torturados para confessar. Vendo isso, esmurra, em pleno saguão do Judiciário, o servidor que apontara os supostos criminosos, Romano - o mesmo que tentara livrar-se do caso ao empurrá-lo para Espósito.
Determinado a encontrar o verdadeiro criminoso, Espósito visita o viúvo de Liliana, o jovem bancário Ricardo Morales. Ao examinar fotografias antigas do casal, nota em diferentes fotos um mesmo homem com olhar vidrado em Liliana. Identificado nas legendas como Isidoro Gómez, passa a ser tido por Espósito como culpado em potencial, uma vez que Liliana provavelmente conhecia seu agressor, já que não havia sinais de arrombamento em sua casa. Morales dá mais força às suspeitas ao descobrir que Gómez e Liliana foram namorados na infância de ambos, na pequena cidade de Chivilcoy. Espósito e e seu assistente Pablo Sandoval iniciam então uma busca por Gómez, mas não conseguem localizá-lo. Para piorar, ao irem à Chivilcoy para vistoriarem a casa da mãe dele, têm sua conduta ilegal denunciada para o juiz da seção em que trabalham. Ainda assim, conseguem manter sigilosamente entre eles a correspondência que Gómez enviava à mãe, mas não conseguem decifrar possíveis paradeiros do homem nem os diferentes e misteriosos nomes que ele menciona nas cartas.
No entanto, o escândalo em que haviam se metido, e a falta de provas concretas contra Gómez fazem com que o caso seja arquivado. Espósito não desiste, encantado com os sentimentos de Morales pela falecida esposa, ao deparar-se casualmente com ele em uma estação de trem.

https://www.youtube.com/watch?v=QplBkNNacI0


Orgulho e Preconceito

ORGULHO E PRECONCEITO

PRIDE AND PREJUDICE - Jane Austen
“É verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de boa fortuna deve estar necessitado de esposa.”
É com essas palavras que Jane Austen inicia Orgulho e preconceito, conduzindo o leitor diretamente ao lar dos Bennet, família com não menos que cinco noivas em potencial: Jane, Elizabeth, Mary, Kitty e Lydia. Quando o sr. Bingley e o sr. Darcy, dois jovens distintos, chegam a Hert­fordshire, todas ficam em alerta: eles são solteiros, bonitos e, claro, donos de uma boa fortuna. 
O que poderia ser uma típica história de amor é, nas mãos de uma das escritoras de língua inglesa mais difundidas pelo mundo, um espetáculo de grandes personagens e diálogos sagazes, com um timing perfeito para a ironia.

Jane Austen desafiou as convenções sociais ao criticá-las pelas entrelinhas, pontuando seus livros com toques de humor que só uma observadora perspicaz e uma brilhante escritora poderia unir. 
Suas histórias, passadas na Inglaterra da virada do século XVIII para o XIX, falam para os leitores de todas as épocas. 
ORGULHO E PRECONCEITO

domingo, 30 de novembro de 2014

Tosca - falando de amor


 
Theatro Municipal de São Paulo 

Praça Ramos de Azevedo s/n

GIACOMO PUCCINI 
TOSCA 
Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo
 
Coro Lírico Municipal de São Paulo
 
Oleg Caetani– Regência
 
Marco Gandini– Direção Cênica
Simona Morresi – Figurinos 
Floria Tosca
 Ainhoa Arteta (dias 29, 2, 6, 9, 11, 13) Ausrine Stundyte (dias 30, 4, 7) Mario Cavaradossi Marcelo Alvarez (dias 29, 02, 06, 09 e 13) Stuart Neill (dias 30, 04, 07 e 11) Scarpia Roberto Frontali(dias 29, 02, 06, 09 e 13) Nelson Martinez (dias 30, 04, 07 e 11) Cesare AngelottiMassimiliano Catellani Sacristão Saulo Javan Spoletta Luca Casalin 


A  “Tosca”, de Giacomo Puccini,  estreia dia 29,  no Municipal. O diretor, o cenógrafo e o figurinista são  respectivamente, os italianos Marco Gandini, Italo Grassi e Simona Morresi.  “Aqui, teremos um esquema cenográfico complexo, que se movimenta diante do público, com troca de perspectiva dos três principais ambientes exigidos pelo libreto: a igreja, a sala de Scarpia e a prisão, onde Cavaradossi é torturado. Embora nossa montagem possa ser classificada como ‘clássica’, optamos em deslocar a trama, que é de 1800, para uma época mais próxima à nossa.”

Para o diretor, o enredo envolve aspectos políticos, de amor e traição, mas é, sobretudo, uma história de paixão. “‘Tosca’ focaliza três grandes apaixonados, não apenas pelo amor em si, mas também pelo poder, pela liberdade e pela vida. A música de Puccini, também passional, valoriza esse contexto.”

A regência é do também italiano Oleg Caetani e os três principais personagens são interpretados por solistas internacionais: no da cantora lírica Floria Tosca, se revezam Ainhoa Arteta (Espanha) e Ausrine Stundyte (Lituânia); no do chefe de polícia Scarpia, Roberto Frontali (Itália) e Nelson Martinez (Cuba), e, no do pintor Mario Cavaradossi, Marcelo Alvarez (Argentina) e Stuart Neill (EUA), o qual, ainda no mês passado, desempenhou este mesmo papel no Ópera Nacional de Paris.

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  O estranho é o nome secreto do verdadeiro Uma das coisas boas que o tempo me deu foi a permissão de ser estranha. Durante muito tempo ach...