O estranho é o nome secreto do verdadeiro
Uma das coisas boas que o tempo me deu foi a permissão de ser estranha.
Durante muito tempo achei que havia algo de errado em não caber — nas conversas, nas modas, nas certezas.
Tentava disfarçar minhas margens, fingir simplicidade onde havia abismos, inventar leveza onde o mundo pesava.
Mas a vida, com sua paciência implacável, foi me ensinando que ser estranho não é desvio, é natureza.
Que a palavra “estranho” carrega apenas o medo dos outros diante da diferença.
E que a normalidade, essa máscara tão bem polida, é talvez o mais profundo dos fingimentos humanos.
O que chamam de normal costuma ser apenas a tentativa desesperada de ser aceito.
Mas a aceitação dos outros é um abrigo frágil — basta um vento mais forte para ruir.
A aceitação de si, essa sim, é morada.
E é nela que a estranheza deixa de ser exílio e vira casa.
Hoje, entendo que o estranho é apenas aquele que se recusa a amputar o que sente.
O que não se acomoda em moldes.
O que, mesmo tremendo, escolhe permanecer inteiro.
Ser estranho é um ato de coragem — e, talvez, a forma mais discreta de liberdade.
Carla Martins
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